Adelfopoiese: O Esquecido Ritual de Casamento Gay Cristão

By João Paulo Saragossa - janeiro 02, 2024

A percepção e aceitação social da homoafetividade mudou e se transformou ao longo dos séculos, variando entre períodos de extrema rejeição até relativa normalização. O cristianismo, com seus 2 séculos de jornada não poderia deixar de ser atravessado por essas percepções. Na antiguidade e durante a idade média, onde a influência da cultura e filosofia helênica tratava com ambigua positividade o afeto romântico entre dois homens, tanto a Igreja Católica quando a Igreja Ortodoxas celebravam uma forma peculiar de cerimônia de união entre pessoas do mesmo sexo.

Essa cerimônia, nomeada Adelphopiosesis (que em grego significa algo como “fazer irmãos”) oficialmente funcionava como um pacto de irmandade santificado pela autoridade religiosa. Esse tipo de pacto, muito comum na antiguidade para firmar alianças militares e familiares foi apropriado e transformado pela cristandade numa espécie de “união de almas” entre dois homens (não encontrei referência a casais de mulheres nesse contexto) que buscavam santificar um relacionamento de afeto profundo, onde os dois se dedicariam a cultivar uma amizade baseada na imitação de célebres pares de santos (São Pedro e Paulo, André e Tiago, João e Tomé, Sérgio e Baco, Cosme e Damião, etc.)


Apesar da justificativa teológica para essa celebração deixar bem claro que ela se reduz a reconhecer uma forma amor fraterno e casto entre os pares, ela foi durante seu período de uso uma forma de casais homossexuais viabilizarem seus relacionamentos e a prova disso é que o Pedalion, o livro de Direito Canônico da Igreja Ortodoxa Oriental, conforme relatado pelo historiador Franco Mormando, "reconhece a natureza frequentemente erótica da relação ritualizada na 'irmandade por cerimônia de adoção" ou de "irmandade conjugal": ao proibir a cerimônia (em seu capítulo sobre casamento), o Pedalion afirma que a fraternidade conjugal "apenas fornece matéria para algumas pessoas satisfazerem seus desejos carnais e desfrutarem de prazeres sensuais, como inúmeros exemplos de experiências reais têm mostrado em vários momentos e em vários lugares...'".

Na recente declaração Fiducia suplicans, a Igreja Católica dá um importante passo na direção do reconhecimento e acolhimento de casais homossexuais, permitindo que sacerdotes abençoem os casais que a solicitarem, embora ressalte que o rito de tal benção não deve se assemelhar de nenhuma forma ao rito sacramental do casamento, o que deixa um vácuo litúrgico em como essa benção deva ser celebrada.

Seria esse vácuo uma oportunidade de reavivar e atualizar o rito da Adelfopoiese?

Transcrevo abaixo um rito de Adelfopoiese que encontrei na Wikipédia do termo

1. os irmãos, que são colocados na igreja em frente ao púlpito, no qual está a cruz e as escrituras; o mais velho dos dois é colocado à direita, enquanto o mais novo é colocado à esquerda;

2. realizam-se orações e litanias que pedem que os dois sejam unidos em amor e sejam lembrados de exemplos de amizade na história da Igreja;

3. eles amarram os dois com um cinto, colocam as mãos nos evangelhos e cada um recebe uma vela acesa;

4. leem-se os versos da Primeira Carta aos Coríntios 12:27 a 13: 8 (discurso de São Paulo sobre o amor) e do Evangelho de João 17: 18-26 (o discurso de Jesus Cristo sobre a unidade) são lidos;

5. mais orações e litanias são lidas como indicado no ponto 2;

6. é lido o Pai Nosso;

7. os futuros irmãos recebem os dons santificados de um cálice comum;

8. eles são conduzidos ao redor do púlpito enquanto apertam as mãos e o próximo tropário é cantado: "Senhor, olha do céu e vê";

9. trocam-se beijos;

10. finalmente, os presentes cantam: «Oh, quão bom, quão doce viver todos os irmãos juntos!» (Salmos 133:1).

Uma das orações, que são recitadas durante a cerimônia, é a seguinte:

Deus Todo Poderoso, que foi antes do tempo e será para sempre, que se inclinou para visitar os homens através do seio da Mãe de Deus e da Virgem Maria, envie seu anjo sagrado para esses seus servos [nome] e [nome], que vocês se amam, assim como seus santos apóstolos Pedro e Paulo se amavam, e André e Tiago, João e Tomé, Tiago, Filipe, Mateus, Simão, Tadeu, Matias e os santos martirizados Sérgio e Baco, assim como Cosme e Damião, não pelo amor carnal, mas pela fé e amor do Espírito Santo, que todos os dias de sua vida permaneçam em amor. Através de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.


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