RESENHA: Teologia e os LGBT +: perspectiva histórica e desafios contemporâneos

By João Paulo Saragossa - janeiro 01, 2024


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Leitura indispensável para entender e aprofundar a vivência LGBT+ no cristianismo (especialmente o católico), o livro “Teologia e os LGBT +: perspectiva histórica e desafios contemporâneos” oferece não só um panorama histórico e social da pessoa LGBT+ no campo cristão como também desconstrói diversos argumentos utilizados para excluir e violentar o povo de fé LGBT+.

O texto a seguir foi daptado do artigo "Teologia e os LGBT+: perspectiva histórica e desafios contemporâneos".

O autor é Dr. Luís Corrêa Lima, padre jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Desenvolve pesquisa sobre a história da Igreja, Modernidade, diversidade sexual e de gênero. Possui diversos textos e artigos publicados sobre estes temas, e realiza apostolado com pessoas LGBT+.

Dr. Luís Corrêa Lima. FONTE: Internet.

No prefácio do livro, João Décio Passos, que é especialista em Ciências Sociais pela PUC-SP, destaca que as pessoas homoafetivas são como os últimos a se destacarem na história da sociedade moderna. Eles enfrentam problemas por assumirem quem são e quererem ter autonomia, assim como aconteceu com outras pessoas no passado. Essas pessoas sofrem não só com a rejeição à aceitação do que são, mas também com preconceitos baseados em ideias chamadas de "teologias naturais". Essas ideias defendem que discriminações são aceitáveis aos olhos de Deus e fazem parte da natureza das coisas. Ao longo da história, o cristianismo acabou contribuindo para essa situação, sendo parte do problema ao fundamentar preconceitos e negar direitos. Os capítulos do livro falam sobre a vida real das pessoas homossexuais, questões de gênero e LGBTs, revisam as ideias da tradição católica sobre sexualidade, sugerem valores éticos para pensar sobre o assunto e dão ideias para a Igreja agir de maneira mais inclusiva.

No começo do livro, no capítulo chamado "A sexualidade e a tradição judaico-cristã" o autor explora como a forma como pensamos sobre sexo está diretamente ligada à tradição judaico-cristã. Essa tradição é um conjunto de ideias, valores, práticas e instituições que moldou sociedades no Oriente e no Ocidente ao longo do tempo. Começou com Jesus Cristo e seus seguidores, que fundaram a Igreja e escreveram as Sagradas Escrituras. Eles incorporaram as Escrituras hebraicas e deram uma nova perspectiva a elas. Essa tradição tem sido passada por gerações e milênios, sempre se adaptando a novos contextos para permanecer compreensível e relevante.

Essa tradição começou em Israel e depois se misturou com o mundo greco-romano. Foi lá que a teologia (o estudo de Deus) começou a influenciar como as pessoas viam a sexualidade. A moral cristã, que é basicamente um conjunto de regras de comportamento baseadas na fé, foi se formando ao longo da história e pegou elementos do mundo judaico, do mundo helenista (grego e romano) e do mundo ocidental.

Ao longo dessa mistura de influências ao longo do tempo, podemos perceber três grandes formas de pensar sobre moral na tradição judaico-cristã: primeiro, a ideia de que a razão ascética era importante, especialmente na época dos primeiros líderes da igreja, que foram influenciados pelo estoicismo e pelo platonismo; depois, na Idade Média e após o Concílio de Trento, a ideia de que a razão natural (o que as pessoas acham certo ou errado naturalmente) era mais relevante; e, finalmente, a ideia de que a razão pessoal se tornou mais importante depois do Concílio Vaticano II.

No segundo capítulo do livro, chamado "A emergência das questões de gênero e orientação sexual", o autor aborda algo que a gente vê muito hoje em dia: a visibilidade da população LGBT, que inclui gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Essas são identidades ligadas ao jeito como as pessoas se identificam com seu gênero e quem elas gostam romanticamente.

O autor explora como as diferentes formas de orientação sexual e identidades de gênero têm uma história complicada, especialmente aqui no Ocidente, e como isso tudo se relaciona com a tradição judaico-cristã. Nos últimos tempos, com o avanço da sociedade moderna, as pessoas que fazem parte da comunidade LGBT+ têm ganhado mais visibilidade e conquistado mais espaço. O que tá acontecendo agora nos coloca diante de novas informações, conquistas, desafios e perguntas para pensar.

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No terceiro capítulo do livro, que é chamado "O mundo católico diante das questões de gênero e orientação sexual", o autor fala sobre como os LGBT conquistaram mais direitos e mudaram a forma como as pessoas pensam, especialmente em países onde a maioria é cristã, seja católica ou protestante. Isso aconteceu porque essas nações foram bastante influenciadas pela cultura moderna.

Ele destaca que muita gente que ajudou nessas mudanças não foi movida por razões religiosas, mas por outras razões mais ligadas à sociedade em geral. No entanto, também existem cristãos que foram pioneiros nessas mudanças, mesmo sendo uma minoria, e que pensavam diferente de outros cristãos ou de membros das suas próprias igrejas.

Depois, o autor fala sobre como a Igreja Católica, em nível global, teve posições diferentes em relação às questões de gênero e orientação sexual, mostrando resistências e aberturas. Ele também aborda as posições das conferências de bispos em nível regional. Por último, o autor destaca que a relação da Igreja Católica com os LGBT está passando por uma mudança importante durante o pontificado do Papa Francisco. Um ponto interessante é o Sínodo dos Bispos sobre a Família e suas consequências.

No quarto capítulo do livro, que se chama "Homossexuais e o acesso ao sacerdócio ministerial", o autor fala sobre como a Igreja Católica trata as pessoas homossexuais que querem ser padres. Ele explora como a Igreja recebe essas pessoas no sacerdócio e tenta responder a questões sobre como lidar com padres e candidatos ao sacerdócio que são homossexuais.

O autor destaca que é importante não misturar os problemas de abuso sexual com a orientação sexual ou o celibato. Ele encerra o capítulo mencionando dois padres gays que são abertos sobre sua orientação sexual, Fred Daley e Gregory Greiten. Eles compartilham suas experiências publicamente, gerando muitas discussões e perguntas.

No quinto capítulo do livro, chamado "Novas perspectivas, desafios teológicos e pastorais", o autor aborda dois temas: a) uniões homossexuais e o debate na igreja; b) gênero e orientação sexual.

Ele destaca que entender a vida dos LGBT+ é complicado e sensível, trazendo questões importantes que desafiam a forma como a igreja compartilha suas mensagens: a interpretação crítica das Sagradas Escrituras, prestar atenção nas descobertas da ciência, considerar diferentes perspectivas morais e seguir a própria consciência. Tudo isso faz parte do ensinamento da igreja e é um conteúdo valioso e dinâmico na vida das pessoas que seguem a fé cristã. Quando unimos esses elementos com a teologia (o estudo de Deus) e a espiritualidade, podemos ajudar muito na ação de compartilhar a mensagem cristã com essas pessoas.

Nas "Considerações finais" do livro, o autor compara a história dos LGBT+ com a do povo judeu na era cristã, mencionando eventos como o nazismo e o antissemitismo moderno. Ele destaca que é crucial evitar que isso se repita e sugere uma revisão ampla das práticas, mensagens e ensinamentos nas comunidades cristãs.

O autor nos lembra que o assunto sobre teologia e os LGBT+ não é apenas algo abstrato, mas tem um impacto real e importante na vida de muitas pessoas. Ele concorda com o Dr. João Décio Passos, que diz que essa reflexão pode causar reações negativas daqueles que são mais tradicionais, pois expõe preconceitos existentes na sociedade e na igreja. Mas ele destaca que essa reflexão segue a tradição de incluir os excluídos na comunidade cristã e na sociedade, algo que vem sendo construído desde a Exortação Amoris Laetitia.

No coração dessa reflexão está a prática de Jesus e da igreja, sendo uma fonte profunda de fé de onde surgem as vozes dos excluídos, que lutam contra os sistemas sociais, políticos e morais do passado e do presente. O autor destaca que, conforme a ética de Jesus, ninguém deve ser excluído em nome de leis, teorias ou teologias.

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