RESENHA: Teologia e os LGBT +: perspectiva histórica e desafios contemporâneos
Leitura indispensável para entender e aprofundar a vivência LGBT+ no cristianismo (especialmente o católico), o livro “Teologia e os LGBT +: perspectiva histórica e desafios contemporâneos” oferece não só um panorama histórico e social da pessoa LGBT+ no campo cristão como também desconstrói diversos argumentos utilizados para excluir e violentar o povo de fé LGBT+.
O texto a seguir foi daptado do artigo "Teologia e os LGBT+: perspectiva histórica e desafios contemporâneos".
O autor é Dr. Luís Corrêa Lima, padre jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Desenvolve pesquisa sobre a história da Igreja, Modernidade, diversidade sexual e de gênero. Possui diversos textos e artigos publicados sobre estes temas, e realiza apostolado com pessoas LGBT+.
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| Dr. Luís Corrêa Lima. FONTE: Internet. |
No prefácio do livro, João Décio Passos, que é especialista em Ciências Sociais pela PUC-SP, destaca que as pessoas homoafetivas são como os últimos a se destacarem na história da sociedade moderna. Eles enfrentam problemas por assumirem quem são e quererem ter autonomia, assim como aconteceu com outras pessoas no passado. Essas pessoas sofrem não só com a rejeição à aceitação do que são, mas também com preconceitos baseados em ideias chamadas de "teologias naturais". Essas ideias defendem que discriminações são aceitáveis aos olhos de Deus e fazem parte da natureza das coisas. Ao longo da história, o cristianismo acabou contribuindo para essa situação, sendo parte do problema ao fundamentar preconceitos e negar direitos. Os capítulos do livro falam sobre a vida real das pessoas homossexuais, questões de gênero e LGBTs, revisam as ideias da tradição católica sobre sexualidade, sugerem valores éticos para pensar sobre o assunto e dão ideias para a Igreja agir de maneira mais inclusiva.
No começo do livro, no capítulo chamado "A sexualidade e a tradição judaico-cristã" o autor explora como a forma como pensamos sobre sexo está diretamente ligada à tradição judaico-cristã. Essa tradição é um conjunto de ideias, valores, práticas e instituições que moldou sociedades no Oriente e no Ocidente ao longo do tempo. Começou com Jesus Cristo e seus seguidores, que fundaram a Igreja e escreveram as Sagradas Escrituras. Eles incorporaram as Escrituras hebraicas e deram uma nova perspectiva a elas. Essa tradição tem sido passada por gerações e milênios, sempre se adaptando a novos contextos para permanecer compreensível e relevante.
Essa tradição começou em Israel e depois se misturou com o mundo greco-romano. Foi lá que a teologia (o estudo de Deus) começou a influenciar como as pessoas viam a sexualidade. A moral cristã, que é basicamente um conjunto de regras de comportamento baseadas na fé, foi se formando ao longo da história e pegou elementos do mundo judaico, do mundo helenista (grego e romano) e do mundo ocidental.
Ao longo dessa mistura de influências ao longo do tempo, podemos perceber três grandes formas de pensar sobre moral na tradição judaico-cristã: primeiro, a ideia de que a razão ascética era importante, especialmente na época dos primeiros líderes da igreja, que foram influenciados pelo estoicismo e pelo platonismo; depois, na Idade Média e após o Concílio de Trento, a ideia de que a razão natural (o que as pessoas acham certo ou errado naturalmente) era mais relevante; e, finalmente, a ideia de que a razão pessoal se tornou mais importante depois do Concílio Vaticano II.
No segundo capítulo do livro, chamado "A emergência das questões de gênero e orientação sexual", o autor aborda algo que a gente vê muito hoje em dia: a visibilidade da população LGBT, que inclui gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Essas são identidades ligadas ao jeito como as pessoas se identificam com seu gênero e quem elas gostam romanticamente.
O autor explora como as diferentes formas de orientação sexual e identidades de gênero têm uma história complicada, especialmente aqui no Ocidente, e como isso tudo se relaciona com a tradição judaico-cristã. Nos últimos tempos, com o avanço da sociedade moderna, as pessoas que fazem parte da comunidade LGBT+ têm ganhado mais visibilidade e conquistado mais espaço. O que tá acontecendo agora nos coloca diante de novas informações, conquistas, desafios e perguntas para pensar.
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Ele destaca que muita gente que ajudou nessas mudanças não foi movida por razões religiosas, mas por outras razões mais ligadas à sociedade em geral. No entanto, também existem cristãos que foram pioneiros nessas mudanças, mesmo sendo uma minoria, e que pensavam diferente de outros cristãos ou de membros das suas próprias igrejas.
Depois, o autor fala sobre como a Igreja Católica, em nível global, teve posições diferentes em relação às questões de gênero e orientação sexual, mostrando resistências e aberturas. Ele também aborda as posições das conferências de bispos em nível regional. Por último, o autor destaca que a relação da Igreja Católica com os LGBT está passando por uma mudança importante durante o pontificado do Papa Francisco. Um ponto interessante é o Sínodo dos Bispos sobre a Família e suas consequências.
No quarto capítulo do livro, que se chama "Homossexuais e o acesso ao sacerdócio ministerial", o autor fala sobre como a Igreja Católica trata as pessoas homossexuais que querem ser padres. Ele explora como a Igreja recebe essas pessoas no sacerdócio e tenta responder a questões sobre como lidar com padres e candidatos ao sacerdócio que são homossexuais.
O autor destaca que é importante não misturar os problemas de abuso sexual com a orientação sexual ou o celibato. Ele encerra o capítulo mencionando dois padres gays que são abertos sobre sua orientação sexual, Fred Daley e Gregory Greiten. Eles compartilham suas experiências publicamente, gerando muitas discussões e perguntas.
No quinto capítulo do livro, chamado "Novas perspectivas, desafios teológicos e pastorais", o autor aborda dois temas: a) uniões homossexuais e o debate na igreja; b) gênero e orientação sexual.
Ele destaca que entender a vida dos LGBT+ é complicado e sensível, trazendo questões importantes que desafiam a forma como a igreja compartilha suas mensagens: a interpretação crítica das Sagradas Escrituras, prestar atenção nas descobertas da ciência, considerar diferentes perspectivas morais e seguir a própria consciência. Tudo isso faz parte do ensinamento da igreja e é um conteúdo valioso e dinâmico na vida das pessoas que seguem a fé cristã. Quando unimos esses elementos com a teologia (o estudo de Deus) e a espiritualidade, podemos ajudar muito na ação de compartilhar a mensagem cristã com essas pessoas.
Nas "Considerações finais" do livro, o autor compara a história dos LGBT+ com a do povo judeu na era cristã, mencionando eventos como o nazismo e o antissemitismo moderno. Ele destaca que é crucial evitar que isso se repita e sugere uma revisão ampla das práticas, mensagens e ensinamentos nas comunidades cristãs.
O autor nos lembra que o assunto sobre teologia e os LGBT+ não é apenas algo abstrato, mas tem um impacto real e importante na vida de muitas pessoas. Ele concorda com o Dr. João Décio Passos, que diz que essa reflexão pode causar reações negativas daqueles que são mais tradicionais, pois expõe preconceitos existentes na sociedade e na igreja. Mas ele destaca que essa reflexão segue a tradição de incluir os excluídos na comunidade cristã e na sociedade, algo que vem sendo construído desde a Exortação Amoris Laetitia.
No coração dessa reflexão está a prática de Jesus e da
igreja, sendo uma fonte profunda de fé de onde surgem as vozes dos excluídos,
que lutam contra os sistemas sociais, políticos e morais do passado e do
presente. O autor destaca que, conforme a ética de Jesus, ninguém deve ser
excluído em nome de leis, teorias ou teologias.






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